domingo, 5 de julho de 2009

Entrevista com o vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas de PE - Ricardo Mello


Entrevista

A discussão sobre as mudanças nas diretrizes do curso de jornalismo, a regulamentação da profissão e o ciberjornalismo mobilizam o debate entre jornalistas de todo país. Apesar da polêmica com relação ao diploma, é consenso entre os jornalistas de que a profissão tem que ser regulamentada e que isso torna-se uma medida indiscutível. A reflexão sobre o papel do "novo jornalista" no mercado de trabalho também entra em pauta e para falar sobre esses assuntos, o jornalista, professor de jornalismo e consultor em comunicação Ricardo Mello, mestre em comunicação pública e política pela UFPE, autor do livro "Comunicação de interesse público", explica quais são os desafios do estudante de jornalismo e o perfil desse profissional que ambiciona uma vaga no mercado.

Por Brena Vila Nova

1-A regulamentação da profissão jornalista oferece riscos à gestão governamental?

RM: Essa história foi uma discussão enorme e mal conduzida por má fé dos meios de comunicação. Na verdade, a questão é que a discussão foi direcionada de maneira equivocada pelos meios de comunicação. Quando Lula propõe um conselho federal, e isso só partiu do Governo porque tem que partir do Governo uma proposta, os meios de comunicação transformaram a discussão em "Lula quer criar um conselho para tomar conta dos jornalistas", mas a discussão do conselho federal é que ele atue sobre um tipo de controle que seja de interesse da sociedade e que, não seja desregulamentado e todo mundo faça o que quiser. E a coisa não avançou porque a discussão precisava ter recomeçado. No final das contas, os rebatimentos acabam sendo de uma luta de uma categoria por conseguir melhorar o cumprimento do seu papel. Isso tem reflexos fortes na identidade dessa categoria, na auto-estima desse profissional. No caso, do estudante de jornalismo, que passa quatro anos na faculdade, aprendendo coisas que são próprias do exercício da profissão, aí vem alguém e diz qualquer pessoa pode ser jornalista e exercer a profissão. Eu acho essa discussão rasteira e injustificável porque é claro que a profissão precisa ser regulamentada. A sociedade se discute também, por meio do jornalismo. O médico é médico profissional porque ele se habilitou para aquilo e o jornalista é um profissional, uma pessoa que teve uma formação para se tornar alguém capaz de desempenhar um papel. Por que se começa uma discussão dessa? Para que a gente não tenha nenhum tipo de controle social, de organização social. A perda desse trabalho de avaliar e de acompanhar, de ter algum tipo de regulamentação, seria um grande prejuízo para todos. Nós precisamos criar mecanismos para que a gente tenha um jornalismo melhor.

2-Como você avalia a contribuição dos jornalistas brasileiros na construção de uma comunicação democratizada?

RM: Eu tenho visto com muita alegria, o movimento que se fortalece no Brasil hoje, com relação a comunicação. Eu tive por exemplo, a felicidade de ter acesso ao programa "Pé na Rua" que uma produtora de Recife está se preparando para colocar no ar. É um programa de comunicação voltado para iniciativas legais, um grupo de jornalistas envolvidos com processo de comunicação, procurando pessoas de comunidades do Recife, com um olhar diferenciado sobre os jornais. Eu me recentia muito porque em segmentos, como da saúde, educação, eu via movimentos acontecendo, e a gente não percebia uma organização de debate e reflexão entre os comunicadores, até porque debatemos muito pouco a comunicação. Hoje, a gente tem o agendamento da 1º Conferência Nacional de Comunicação, que acontece em dezembro, entre os dias 1 e 3. E com a atuação da Federação Nacional do Jornalista, o Fórum de Professores de Jornalismo, a gente vê um movimento acontecendo; pessoas que querem debater e isso começa a dar resultados. A discussão do jornalismo está amadurecendo e a missão do jornalsita é promover uma melhoria na atuação pública das pessoas.

3-O que seria a comunicação de interesse público?

RM: Eu estava discutindo isso, há alguns dias com um grupo com o qual trabalho, tentando encontrar o que é esse interesse coletivo. O interesse público não precisa ser globalizado, o interesse público pode ser bem específico. Pode ser de uma comunidade periférica, que seja motivado por aquilo que reúne as pessoas, que está além do interesse individual. É aquilo que pode nos mover em conjunto para melhorar as condições de vida. Tudo aquilo que promove o direito humano é de interesse público. A comunicação não pode estar ausente de um processo como esse. A comunicação que é formadora e informativa; e promove a mobilização é de interesse público. E hoje, a gente têm interesses públicos que não estão só geograficamente definidos, porque temos comunidades virtuais com interesses comuns; o interesse não está localizado numa esquina ou num bairro, mas num assunto ou numa ação coletiva.

4-O que o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo tem discutido sobre a formação dos "novos jornalistas"?

RM: O Fórum está exigindo uma discussão cheia de novidades, porque as novas tecnologias nos levam a isso, os questionamentos sobre o que é a profissão, o que é comunicação, o campo do jornalismo e as mudanças nas diretrizes curriculares passam por aí. E o que mais gostei disso tudo e o que percebo na preocupação do Fórum é a reflexão sobre a base do jornalismo. O jornalista cumprindo seu papel, sabendo lidar com as novas tecnologias, para que não haja uma banalização.. Isso é uma discussão dentro da universidade. Quer dizer que o acesso à ferramenta tecnológica faz de todo mundo um comunicador? A princípio, todo mundo é um comunicador em potencial, e o jornalista pode fazer a diferença porque a gente tem que aprender a ter responsabilidade sobre essa informação que está circulando e entender um pouco disso é papel do jornalista.

5-A consultoria, a assessoria de imprensa e o marketing são áreas que tendem a absorver o comunicador social com habilitação em jornalismo?

RM:Sim, a gente lida com informação, com reflexão, com planejamento, por entender a repercussão da informação que a gente está trabalhando. A gente procura não ser manipulador, a gente procura não ser alguém que faz um mal uso da informação. A informação precisa trazer às pessoas a possibilidade de pensar sobre a vida delas, de refletir; de ter um dia melhor; de fazer um curso que elas não sabiam que existia; de usar o conhecimento a favor delas. Sempre que o conhecimento, a possibilidade de decisão e o fortalecimento da cidadania passa pela informação, o jornalista pode estar aí presente.

6-Em sala de aula, quais são as principais inquietações dos alunos sobre a prática do jornalista?

RM:Os alunos têm inquietações que são mais permanentes e outras mais pontuais. Se a gente for analisar hoje, é evidente que a questão do diploma, o questionamento que se faz sobre a própria profissão do jornalista. Por que estão perguntando se eu tenho ou não que ter diploma? Por que estão me perguntando se faz sentido eu estar aqui, dedicando quatro anos da minha vida para me formar em jornalismo? E é evidente que qualquer estudante de qualquer área, vai ter a inquietação com relação ao "virar adulto". Chega uma hora que você deixa de ser estudante e você vai para o mundo, e a possibilidade de errar e acertar; o experimentalismo que te permite a universidade não se dá como no trabalho, porque o nível de exigência é maior. A gente tem que parar de pensar em comunicação como se fosse: eu estou me formando em jornalismo para ser repórter. Eu só posso ser repórter? O que é ser repórter? Eu vou ser uma estrela do jornalismo? E a gente começa a ter uma descoberta, e o que vejo é que o próprio estudante está cavando seus espaços. A inquietação do estudante não pode ser só onde eu vou trabalhar e quanto eu vou ganhar, porque isso vai depender muito mais de uma resposta que ele vai dar, do que de uma resposta que ele vai receber de alguém lá fora.

7-Com o ciberjornalismo, o jornalista precisa reaprender a produzir a informação?

RM: Existe a polêmica da "blogosfera". Existe jornalismo na blogosfera? A gente está aprendendo a lidar com essa novidade. Está todo mundo dentro de um campo novo. O jornalismo sério que está sendo feito na internet tem provocado muitas mudanças e aí a gente tem que olhar para isso como instrumento, como ferramenta. Tudo tem que ser aperfeiçoado, bem monitorado. O jornalista precisa distiguir o que é bom ou não, e informação na internet não quer dizer que é jornalismo que está sendo feito nem quer dizer que é jornalismo bem feito.

8-Como romper com o paradigma de que a teoria do jornalismo é "pura filosofia" e torna-se inválida diante da prática jornalística?

RM: Eu já ouvi estudante de terceiro período dizendo: mais professor o que adianta a gente está discutindo tanto, a gente critica, reflete, mas eu sei o que vou enfrentar lá fora. E aí, eu fico como se fosse o espaço da teoria e depois vou para o mundo da prática. Eu acho que a gente precisa acreditar que essa discussão da prática surge também a partir de teorias, que foram formuladas através de práticas, de estudos, e isso é algo transformador. E quanto mais pessoas estiverem refletindo, pensando, alterando e melhorando sua prática, estaremos construindo o processo histórico. A gente precisa continuar acreditando que as teorias não caem do céu, não surgem do nada. Elas são refletidas, as pesquisas acontecem para isso. A universidade tem que estar aberta para o mundo, não pode se fechar no espaço universitário porque aí sim, corre o risco de virar "filosofia". A gente precisa melhorar nossa prática a partir da teoria, sempre refletindo nossa prática. Isso é o que permite novos avanços. É uma visão otimista, mas eu prefiro optar por colocá-la em prática e ser um agente multiplicador dela do que "entregar os pontos".

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