Walter Cronkite morreu um dia antes dos 40 anos do episódio que narrou com maestria, para milhões de americanos assombrados. O homem mais confiável dos Estados Unidos transmitiu a jornada da Apollo 11 rumo ao desconhecido com sobriedade e fascínio. Em vinte anos de aparições diárias no comando do telejornal de maior audiência da América, o CBS Evening News, Cronkite derramou apenas uma lágrima discreta na morte de John F. Kennedy. Não faço aqui nenhuma ode ao desempenho intelectual do âncora que virou mito. Mas podem ter certeza que sua atuação me provoca alguma nostalgia do tempo em que a sociedade se reconhecia na discrição. Walter Cronkite se tornou o que se tornou não pelo que disse, mas pelo que não chegou a dizer. E, nas raras ocasiões em que externou opiniões, ainda que em sussurros, foi mais ouvido do que se as gritasse diariamente na TV.
Hoje, os americanos, como de resto a maior parte do mundo, absorvem a notícia aos berros. É muito barulhenta essa era de celebridades instantâneas. Se o homem pisasse hoje na Lua, pela primeira vez, talvez boa parte da pseudo-imprensa mundial acompanhasse o fato com menos estardalhaço do que aquele dedicado à morte de Michael Jackson. Não que o Peter Pan do pop não mereça cobertura de realeza. Não ficou famoso por exibir-se em reality shows mas pelo incrível talento que de fato possuía, e pelo que produziu a partir dele. O que me intriga, e talvez eu esteja mesmo ficando velha, é que seja cobrado dos veículos tradicionais o mesmo tipo de cobertura oferecido pelos sites que acompanham as celebridades. Afinal, as celebridades são célebres porque produzem notícia ou porque são a notícia? Quem cobre a história e quem cobre o show? O que é a notícia, nesse caso? Os figurinos Versace da família perfilada, sorvendo a última gota de sangue do artista diante de um estádio lotado, ou a verdadeira trajetória do mega star, que o levou à morte precoce? A bizarrice terá virado regra? O que é, nesse caso, jornalismo?
O jornalista Gay Talese, considerado por muitos um dos grandes propagadores do new journalism (detalhes, detalhes e mais detalhes no texto do observador incansável) diz que as diferenças entre as coberturas do escândalo de Watergate e da invasão do Iraque são abissais, e influenciaram as ações do governo em ambos os casos. Pode ser. As paixões arrebatam a visão crítica. Mas será esse um problema do jornalismo? Ou dos jornais? E de que jornais?
A pesquisa Marcas de Confiança registra 51% de confiabilidade aos jornalistas brasileiros. É pouco. Mas não me admiro. A bandeira da profissão está puída de tanto ser usada em coberturas que nada têm de jornalismo. Inúmeras plataformas travestidas em mídias jornalísticas confundem o consumidor da informação. Muito se diz que a mídia apenas responde ao desejo da audiência. Mas, cá entre nós, duvido que seja mesmo isso que telespectadores, leitores e ouvintes queiram de nós, jornalistas. A pulverização das mídias, muito saudável sob o aspecto da democratização da informação, não deveria enevoar a atuação do verdadeiro profissional da notícia.
Escrevo este artigo a pedido da revista Seleções, por ter sido uma das vencedoras da pesquisa Marcas de Confiança 2009. Fui considerada, pela terceira vez, a jornalista mais confiável do Brasil. Estou envaidecida. Mas devo dizer também que estamos todos nós, jornalistas, terrivelmente fora de moda. Somos sérios, numa era em que se levar a sério é considerado ultrapassado. Eu, por exemplo, uso o mesmo perfume há décadas. Sou fiel aos meus amigos. Sou prudente. Minha coragem, que existe, sim, está baseada em longo processo de pesquisa prévia e análise de riscos. Me equilibro entre a liberalidade moral e o conservadorismo ético. E tenho certeza de que não sou a única. Se destaque mereço é por estar na janela de exposição que é a TV. Sou vista, sou coerente, e inspiro confiança. Mas a imensa maioria dos verdadeiros jornalistas que conheço é igualmente séria e confiável. As redações estão cheias de pessoas que fazem da nobreza da profissão sua vida. Gente que busca a verdade por dever de ofício e a pratica no dia-a-dia por acreditar nela. Talvez estejamos eclipsados pelo que é considerado, hoje, notícia, mas que, definitivamente, não é jornalismo. Nós, os jornalistas, somos sérios sim. Somos objetivos e previsíveis na atuação profissional. E, somos, sim, profundamente confiáveis.
Fonte: http://www.anapaulapadrao.com.br/
sábado, 25 de julho de 2009
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